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Morre Jaguar, cartunista e fundador de ‘O Pasquim’, aos 93 anos

Jaguar, cartunista e um dos fundadores do semanário O Pasquim, morreu aos 93 anos de idade no Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela assessoria do hospital Copa D’Or neste domingo, 24.

A causa oficial da morte não foi divulgada, mas, de acordo com o comunicado, Jaguar estava “internado em razão de uma infecção respiratória, que evoluiu com complicações renais. Nos últimos dias, estava sob cuidados paliativos”.

Nascido no Rio de Janeiro como Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, deixou a capital do País aos três anos de idade, quando seu pai, funcionário do Banco do Brasil, foi transferido para Juiz de Fora – recomendação de um pediatra para ajudar com a asma de Jaguar. Depois, o banco enviou-o para Santos, onde o jovem fez o primário e o ginásio. Por volta dos 15, pôde, enfim, voltar ao Rio.

“De carioca autêntico eu não tenho nada. Eu simplesmente curto o Rio como se fosse um cara de fora”, explicava o ex-morador de bairros como Lapa, Copacabana e Leblon. Orgulhoso boêmio – jurava que chegou a tomar 50 latinhas de cerveja num único dia – foi um dos fundadores da Banda de Ipanema, que juntava jornalistas, escritores, artistas e cartunistas, e até hoje existe como bloco do carnaval carioca.

Foi autor de dois livros. Ipanema – Se Não Me Falha a Memória (2000), abordava suas lembranças do bairro, em especial do que chamava de “anos gloriosos”, ou seja, as décadas de 1960 e 1970. “Eu quis desistir [de escrever a obra], mas não pude porque já tinha bebido o dinheiro do adiantamento. Mudei [de Ipanema] porque depois da meia-noite já estava tudo fechado, e no Leblon ainda dá pra brincar de boemia”, contava num evento de lançamento em São Paulo. Já Confesso Que Bebi (2001) era um compilado com suas histórias pessoais e sua peregrinação pelos cardápios dos bares cariocas.

Desenhava desde a época de menino, mas “pessimamente”. “Aliás, desenho mal até hoje, é que eu engano muito”, contava em longa entrevista à Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em 2009. “Eu detesto desenhar! Se um dia eu puder ou tiver que parar de desenhar, não desenho mais. Minha única inspiração é a seguinte: ‘Eu tenho que entregar a porra do desenho!’ [Risos]. Se não, eles não me pagam…” , brincava, alegando “não ter saco para personagens” ou “paciência para história em quadrinhos”.

Mesmo diante dessa ‘má vontade’ surgiram personagens marcantes. Entre os principais, o ratinho Sig [alusão a Sigmund Freud], um dos símbolos do Pasquim e apaixonado por mulheres como Odete Lara e Tânia Scher. Sua origem remete ao lançamento da cerveja Skol no Brasil, quando o publicitário Zequinha Castro Neves pediu que Jaguar desenhasse uma história para marcar a ocasião. Surgia o Chopnics, mistura da palavra “chopp” com o movimento “beatniks”, tirinha estrelada pelo personagem BD, o Capitão Ipanema. A inspiração era o amigo Hugo Bidê, que, reza a lenda, levava um ratinho branco para os bares. O roedor ganhou uma versão em desenho, o Sig, e permaneceu mesmo após o fim do Chopnics, se tornando a figura mais frequente nas páginas do Pasquim por anos.

Gastão, o Vomitador, fez sucesso com as inúmeras ocasiões em que passou mal e pôs tudo para fora ao se deparar com os absurdos do noticiário. Em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2015, Jaguar relembrou que o personagem surgiu “na entrevista que O Pasquim fez com Carlos Manga, publicada no número 153 (julho/1972). Nela, Manga confessou um crime hediondo: ele foi o inventor do júri de televisão. Ilustrei sua declaração com o Gastão vomitando. Gastão teve vida breve. Como não sabia fazer outra coisa além de vomitar, enjoei de desenhá-lo e o despedi”.

O Pasquim – Um marco na carreira de Jaguar, assim como na de tantos outros cartunistas brasileiros, o semanário O Pasquim foi fundado em junho de 1969, durante um dos períodos mais difíceis da ditadura militar (1964-1985) – vale lembrar que o Ato Institucional Número 5 havia sido decretado por Costa e Silva no ano anterior.

“A fundação de O Pasquim logo depois do AI-5 foi uma coisa inteligentíssima, né? [Risos]. Um grupo de pessoas consideradas de um certo QI, esperou o AI-5 pra abrir um jornal pra falar mal do Governo! Foi uma ideia brilhante! [Risos] Deu tanto resultado que, seis meses depois, 80% da redação estava em cana”, ironizava.